Por Carlos Ari César Germando da Silva
extraído do Jetsite
No mar tanta tormenta e tanto dano
Tantas vezes a morte apercebida;
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?
Camões
Embora as respostas ainda repousem no fundo do Atlântico, tudo indica que o fator meteorológico se não foi determinante ao menos contribuiu para a tragédia que abateu em pleno vôo de cruzeiro o Airbus da Air France que fazia a rota Rio - Paris. Em meio à consternação geral pela perda de tantas vidas, sonhos e esperanças buscam-se falhas técnicas que expliquem por que uma maravilha tecnológica, que incorpora conquistas científicas acumuladas ao longo de milhares de anos pela humanidade, pôde se desmanchar num piscar de olhos sem motivo aparente.
Este sentimento parece confirmar observação do Prof. Hermógenes de que o grande perigo da tecnologia é implantar no Homem a convicção enganosa de que é onipotente, impedindo-o de ver sua imensa fragilidade. Isto porque a relação causa-efeito do acidente parece estar mais do que evidente: o avião penetrou em um cumulo-nimbo de alta energia a 35.000 pés, e não é preciso mais do que isso para levar à perda de controle em vôo, que leva à velocidade excessiva, que leva à desintegração estrutural.
O radar meteorológico de bordo existe para auxiliar o piloto a evitar o confronto direto com o CB, jamais para desafiar essa que talvez seja a força mais poderosa da natureza. O radar meteorológico, no entanto, tem limitações. A mais importante delas é não indicar turbulência, mas tão somente chuva, sendo o nível de turbulência inferido do gradiente de precipitação; quanto maior o gradiente, tanto maior a turbulência. Ocorre que grandes níveis de turbulência extrapolam o núcleo do CB, onde a precipitação é intensa e o eco do radar é vermelho, espalhando-se também por onde o ar é mais seco e, portanto, o eco do radar é verde.
Ao tentar ultrapassar a Linha de Convergência Intertropical (LTCZ) anormalmente ativa e compacta através de largas brechas verdes entre núcleos vermelhos, o piloto pode ter sido surpreendido por turbulência muito severa fora da zona de precipitação. Naturalmente que os aviadores sabem disso, mas vários relatos de encontro com turbulência severa de outros vôos na mesma área e hora do acidente estão a indicar que o piloto do AF 447 não foi o único a ser surpreendido por uma situação inusitada. Apenas foi o que teve menos sorte.
Por menor que seja, todo CB é área de domínio da Bruxa. Sempre foi e continuará sendo. Nenhum aviador entra em um CB por escolha. Todo aviador teme CB, e com razão. As perguntas que se impõem no caso do AF 447 são as seguintes: Por que o avião estava onde não deveria estar? Que tipo de armadilha atraiu os pilotos? Tudo o mais me parece secundário. Isso não significa que os demais aspectos técnicos relacionados ao acidente não mereçam a devida atenção.
Que as "caixas-pretas" sejam resgatadas e que possamos todos aprender com mais essa tragédia que enlutou a aviação mundial, mas que ela nos sirva de lição. Cúmulos-nimbos e aviões são incompatíveis. Os primeiros são grandes, poderosos e perigosos, porém lentos; os segundos, embora mais frágeis, são ágeis e velozes. A única forma conhecida de sobreviver aos cúmulos-nimbos é evitá-los.
Comandante Carlos Ari César Germano da Silva
NE: o Cmte. Germano é piloto com larga experiência e autor do excepcional livro "O Rastro da Bruxa" - Edipuc, RS 2006 - 368 páginas - onde narra dezenas de acidentes aéreos ocorridos com aeronaves brasileiras. Leitura recomendadíssima.
Tantas vezes a morte apercebida;
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?
Camões
Embora as respostas ainda repousem no fundo do Atlântico, tudo indica que o fator meteorológico se não foi determinante ao menos contribuiu para a tragédia que abateu em pleno vôo de cruzeiro o Airbus da Air France que fazia a rota Rio - Paris. Em meio à consternação geral pela perda de tantas vidas, sonhos e esperanças buscam-se falhas técnicas que expliquem por que uma maravilha tecnológica, que incorpora conquistas científicas acumuladas ao longo de milhares de anos pela humanidade, pôde se desmanchar num piscar de olhos sem motivo aparente.
Este sentimento parece confirmar observação do Prof. Hermógenes de que o grande perigo da tecnologia é implantar no Homem a convicção enganosa de que é onipotente, impedindo-o de ver sua imensa fragilidade. Isto porque a relação causa-efeito do acidente parece estar mais do que evidente: o avião penetrou em um cumulo-nimbo de alta energia a 35.000 pés, e não é preciso mais do que isso para levar à perda de controle em vôo, que leva à velocidade excessiva, que leva à desintegração estrutural.
O radar meteorológico de bordo existe para auxiliar o piloto a evitar o confronto direto com o CB, jamais para desafiar essa que talvez seja a força mais poderosa da natureza. O radar meteorológico, no entanto, tem limitações. A mais importante delas é não indicar turbulência, mas tão somente chuva, sendo o nível de turbulência inferido do gradiente de precipitação; quanto maior o gradiente, tanto maior a turbulência. Ocorre que grandes níveis de turbulência extrapolam o núcleo do CB, onde a precipitação é intensa e o eco do radar é vermelho, espalhando-se também por onde o ar é mais seco e, portanto, o eco do radar é verde.
Ao tentar ultrapassar a Linha de Convergência Intertropical (LTCZ) anormalmente ativa e compacta através de largas brechas verdes entre núcleos vermelhos, o piloto pode ter sido surpreendido por turbulência muito severa fora da zona de precipitação. Naturalmente que os aviadores sabem disso, mas vários relatos de encontro com turbulência severa de outros vôos na mesma área e hora do acidente estão a indicar que o piloto do AF 447 não foi o único a ser surpreendido por uma situação inusitada. Apenas foi o que teve menos sorte.
Por menor que seja, todo CB é área de domínio da Bruxa. Sempre foi e continuará sendo. Nenhum aviador entra em um CB por escolha. Todo aviador teme CB, e com razão. As perguntas que se impõem no caso do AF 447 são as seguintes: Por que o avião estava onde não deveria estar? Que tipo de armadilha atraiu os pilotos? Tudo o mais me parece secundário. Isso não significa que os demais aspectos técnicos relacionados ao acidente não mereçam a devida atenção.
Que as "caixas-pretas" sejam resgatadas e que possamos todos aprender com mais essa tragédia que enlutou a aviação mundial, mas que ela nos sirva de lição. Cúmulos-nimbos e aviões são incompatíveis. Os primeiros são grandes, poderosos e perigosos, porém lentos; os segundos, embora mais frágeis, são ágeis e velozes. A única forma conhecida de sobreviver aos cúmulos-nimbos é evitá-los.
Comandante Carlos Ari César Germano da Silva
NE: o Cmte. Germano é piloto com larga experiência e autor do excepcional livro "O Rastro da Bruxa" - Edipuc, RS 2006 - 368 páginas - onde narra dezenas de acidentes aéreos ocorridos com aeronaves brasileiras. Leitura recomendadíssima.
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